Texto sobre a minha janela
- Ray Galvão

- 7 de jan. de 2021
- 5 min de leitura
Dos oficialzões, entregue em mãos, com embalagem e votos de felicidade, o único presente de natal que ganhei dessa vez foi da minha mãe, um potinho de desodorante com cheiro de capim-limão. Não dei nenhum, claro. Quem sou eu pra me mobilizar a dar presentes, eu que não tenho nem mais suportado as coisas que eu mesma quero. É como disse Clarice, numa frase que li num cartão postal da livraria cultura, tem um tempo. Era da minha mãe, mas ela me deu de presente quando se desfez, porque eu amava.

Uma vez a Flora virou pra mim e me disse que “Rayssa, a gente herda os traumas dos nossos pais” — e eu respondi que era pra ela ler Cem Anos de Solidão, porque o que é aquele livro senão uma sucessão de heranças de traumas? Os fantasmas que convivem com a gente?
Enfim.
Herdei muitas coisas da minha mãe. Por exemplo o desapego brutal, o hábito de me desfazer das coisas num julgamento muito crítico que confia demais na própria memória. Não tenho necessidade de carregar pela vida este álbum de 100 páginas de fotos da minha infância, penso, e aí me desfaço das coisas e no fim das contas acaba que eu às vezes sinto que não tenho mais nada. Só memórias muito vívidas e praticamente palpáveis das coisas que eu sentia e com o que eu me importava a ponto de deixar registrado nesse estado de permanência.
Mas minha memória não é boa, e eu também não tenho nada para consultar, para examinar, para me debruçar por cima dessa Rayssa que fui e poder entender com muita certeza toda a sucessão de fatos que me trouxe até aqui, até este momento de parar diante dos meus restos e tentar reconstruir alguma coisa que faça sentido. Também não tenho nada pra falar de mim pros outros, de quem eu fui — e acho que isso é o que mais me incomoda. Como eu posso ser algo pros outros, se eu não tenho nada? Só o que eu tenho é o que se apresenta agora, este cheiro intenso de capim-limão, o torpor, as cores. É tudo que eu possuo da minha vida inteira.
Herdei também o hábito de passar coisas adiante como presente. “Aqui, fique com este negócio que comprei pra mim, mas que eu acho que combina muito mais com você”. É uma das manifestações do desapego. Então às vezes eu, que ao contrário da minha mãe não tenho critérios, repasso adiante coisas que na verdade queria guardar pra mim. Como a dignidade, o amor próprio e informações importantes e constrangedoras que eu não gostaria que mais pessoas tivessem acesso. Porque eu tenho um desapego forte até comigo, com a minha identidade, com quem eu sou ou represento.
Porque, como Clarice, eu não gosto tanto de mim a ponto de gostar das coisas que eu gosto. Eu gosto das coisas no instante em que elas estão ali e que se apresentam, cheias de significado. Eu gosto que sejam bonitas e leves e coloridas e que não sejam tristes.
Ah, eu já gostei tanto das coisas tristes… Será que algum dia a gente é feliz? Assim, não que eu não goste da vida agora, não me entendam mal. Este é um texto de aceitação. De estar bem consigo. Mas... será que a gente às vezes é feliz? Ou será que essa felicidade, essa coisa que a gente é ensinado a querer e a buscar, será que isso não é só um produto?
Mas é que eu me pergunto se eu sou feliz. Aqui, imersa em capim-limão, deitada na minha cama de edredom preto com uma nuvem de travesseiros claros, cercada de uma bagunça de livros e de resquícios de pirulitos e balas, olhando bem pra janela que eu tenho, que é a janela que eu sempre quis ter, e saboreando o contraste de cores da parede e da cortina; os sons do trânsito, que fazem o mundo parecer um barco; a música que vem de longe do vizinho; os pássaros gritando na única mangueira que restou; a falta que sinto do cheiro do incenso da minha mãe... Eu sou feliz? E eu gosto dessa imagem da minha janela. Eu gosto porque foi algo que eu planejei ter minha vida toda, como aqueles sonhos distantes que a gente visualiza e esquece. Uma janela que eu tinha abandonado, em algum ponto, quando me vendi para luxos e confortos, mas que eu recuperei, como sempre recuperei a mim mesma. Uma janela que foi se construindo ao longo das muitas casas por onde passei, com seus cheiros de incenso e de cigarro, com bebidas e livros e música. É uma junção de todos os meus momentos bonitos, a minha janela. Nela, eu flutuo para mares distantes e teço feitos grandiosos, mas continuo só um pontinho, uma poeirinha azul elétrica numa imensidão cósmica e estrelar.
É aqui, banhada em capim-limão, que eu sinto como cada coisa foi se adaptando e se construindo, como cada aspecto da minha vida inteira que um dia eu já amei (como se eu tivesse despido os acontecimentos de todos os pesos e restou só o que eu amo) se traduz em cada detalhe de toda essa cena.
E o meu maior medo é de fato o quanto eu não sou permanente.
Amo minha janela, mas tenho certeza de que um dia vou descartá-la, relegá-la à minha memória, confiante de que eu não preciso de nada daquilo. Com certeza um dia ela vai passar a ter tão pouco valor quanto os cadernos onde eu despejava a minha alma e que eu mariekondizei direto pro lixo num acesso de limpeza e purificação. Eu amo quem me tornei, este momento fugaz de quem eu sou agora e, nossa, eu tenho tanto orgulho de mim que eu queria poder ficar assim pra sempre. Só neste momento intenso de amor próprio.
Será que eu deveria me apegar às coisas?
Depois de tanta mudança, de tantas tentativas de me firmar num emprego, num casamento, num cabelo, num estilo musical, sei lá... Depois de tudo o que eu já mudei, será que eu ainda sou capaz de permanência?
Eu queria ser imortal. Queria este momento pra sempre. Só a glória dele. Só essa idealização bonita deste momento aqui, nessa janela, porque claro que o resto do mundo não é a janela, a janela é só um portal mágico por onde vejo o mundo e por onde sinto que o mundo me olha — me olha intensamente, como se através de um telescópio. Lá de longe, neste momento, alguém me vê. Sou eu mesma. A felicidade é Narciso.
Mas herdei, da minha mãe, a mortalidade.
Herdei este corpo, que tem defeitos, e todo o desprezo que já senti por ele, mas também o amor que sinto agora. Traduzi os traumas dela na minha carne, mas também criei os meus próprios e, se um dia tivesse filhos, lançaria para eles essa sucessão de mulheres com muitas cores e um cheiro forte; eu, de capim-limão; ela, de incenso; minha avó, de perfume…
E se todas essas mulheres me vissem agora, quais delas se orgulhariam? Em quais o meu toque é de amor, e a minha imagem, de paz?
Se a Rayssinha de antes se virasse para mim agora, eu acho que ela ia me amar. Eu acho mesmo que sou incrível, e foi uma percepção que eu tive que aceitar, com a qual tive que fazer as pazes. Foi uma conclusão difícil, cheia de percalços, mas agora acho mesmo isso. Não é coisa de instante, porque eu tenho mesmo tentado captar momentos em que não me acho incrível. Não acontecem. Eu posso me achar otária, chata ou pretensiosa, mas sempre é só uma consequência de toda a maravilha que eu trago ao mundo, feito um deus renascido.
Um sentimento bom de conservar. Mas, ao mesmo tempo, um risco constante. Eu me tornei um perigo para mim e para os outros. Eu perturbo a ordem do mundo dizendo que não quero essa felicidade. Eu quero só me amar, num ato tão intenso e revolucionário que todos os vizinhos possam olhar pela janela e ver que — caramba! — ali está uma mulher que é um pontinho nesse mar de coisas igualmente incríveis e igualmente cheias de significado…
mas ela é azul.




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