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Autoantropofagia noturna

  • Foto do escritor: Ray Galvão
    Ray Galvão
  • 12 de set. de 2020
  • 2 min de leitura

Atualizado: 12 de jan. de 2021

Alguma coisa cricrila no quarto

Eu me sento, no escuro, e observo — Ou melhor, tento observar. O grande bloco negro que encaro dá a impressão de que o que ouço é muito menor do que parece (O que dá a nítida sensação de que é gigantesco).





Poderia ser eu cricrilando. Não faria diferença. No escuro, não há distinções. No escuro, não é o que cricrila e o que ouve. No escuro há. O som, o silêncio, o vazio, todos hão, simultaneamente.


E se fosse mesmo eu a cricrilar? Seria diferente? Seria mais ou menos ameaçador?


Pisco umas vezes, mas tentar enxergar é inútil. Penso em negras e brilhantes jabuticabas, doces e polpudas. Molhadas. Penso em trepar nas árvores e chupá-las, e estou prestes a dormir outra vez quando a coisa cricrila.


Dessa vez, tenho certeza. É Algo à direita.

Vem atacar?


Ouço um barulho do vão entre a parede e a cama. Monstros.

Monstros cricrilantes querem me pegar.


Eu me encolho pro meio da cama, com sono, e tento dormir.


Mais um cri. Outra certeza: quem fez o barulho foi eu.

Uma parte de mim, sólida e estabanada, sai barulhando no escuro enquanto tropeça pelas paredes. Não vejo meu corpo, então não sinto meu corpo. Me apalpo, para ver se falta um pedaço de mim, mas é difícil dizer assim, de supetão.


Tenho certeza de que algo ínfimo — uma unha ou um dente ou um pelo — se desprendeu e cresceu-vida-própria, indo se bater nos cantos.


O escuro é a consciência de que sou um todo. Sou tudo. Eu inteira sou o quarto. Eu crcicrilo e tenho medo do bicho por trás do barulho. Mas O que me dá medo sou eu. O sono sou eu. Eu sou o escuro. Sou a parte que dorme e a parte que vigia, as portas do armário cuidadosamente fechadas e as portas do armário rangendo e se abrindo bem devagar.

Sou eu o monstro que salta no escuro. Sou eu o inseto que se prendeu no globo de luz.


Primeiro, me aperto forte entre as seis palmas verdes, morrendo e matando. Depois, me arrasto até a cama e deslizo suavemente sobre mim, me adormecendo. Me aquietando. Me consumindo.

E resta o sono, o escuro e o silêncio.


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