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"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"

  • Foto do escritor: Ray Galvão
    Ray Galvão
  • 10 de jan. de 2021
  • 5 min de leitura

É preciso amar minhas mãos. Dar mais valor pra cada célula, cada átomo, cada memória de ato que escapa nas migalhas de pele que vou deixando onde toco. Meu toque, é preciso que seja uma bênção. Um instante de puro milagre, de mudança do mundo. De despertar. De sentimento. Cada ato é para ser útil, bonito, instigante e cheio de significado.

Porque o amor que é requerido é um amor que não tolera a falta. Não tolera a ausência. Não tolera o momento de pausa, de ócio, de pensar. Que pede uma constância e perenidade de sentimentos que nem sei se eu às vezes tenho, quanto mais em fluxo.


Eu não sou uma pessoa boa. Sei disso pela soma das lembranças registradas na minha memória — essa coisa amaldiçoadamente certa e segura de si que eu carrego comigo, em constante acusação. Sei disso porque convivo com a pessoa que mora dentro de mim, porque vivo o testemunho dos meus pensamentos e atos de uma maneira que ninguém mais poderia testemunhar. Sei porque recebo esse saber como herança desde a primeira culpa, lá em Eva ou na Idade da Pedra ou em Pandora. Sei porque meu pecado moral é imposto, mas é necessário, mas é fundamental, mas é apenas o que me mantém viva.


Meus vizinhos me acham uma pessoa gentil. Que dá bom-dia, que dá sorrisos, que dá uma enfeitada no lugar. Mas aqui dentro, neste meu país de terra infértil (graças a deus) que sou; aqui, todos me olham de esguelha, querendo saber de quem usurpei até as palavras. Aqui dentro, esta terra devastada tão profundamente interior que já não é nem mais minha, aqui os olhares são aquele mesmo meu olhar de quando tinha cinco anos e descobri, muito surpresa, que os mendigos sabiam falar.


É um misto de burrice inocente e acusação e culpa. É uma falsa ingenuidade. É um saber que a culpa de não saber já vem de mim, do meu ventre. E que a culpa de que aquilo sequer seja uma coisa que pode ser vista, essa também é minha. É o olhar poderoso, ameaçador e voraz que me faz entender que eu não sou boa como os outros pensam.

Porque é lá dentro que eu me vejo pecando. Nas ideias. Nos pensamentos de rebeldia. Na parte que cometeu o pecado de descobrir.


Eu mesma que precisava amar minhas mãos — e o problema é que acho que não amo.


Ah, essas mãos que já me causaram tantos incômodos. Que se eu erguer os dedos e olhar ainda consigo vê-los sujos de tanto sangue, lama, porra, gozo e sei lá, sorvete derretido, que nem toda a água do mundo poderia lavar essas sensações. Porque a ponta dos meus dedos fica dormente e se eleva pra dentro dessas memórias, esse gesto tão absolutamente visual que faço agora, na mente, de erguer a mão aos olhos e ver os dedos sujos.


Esses dedos que não são perfeitos. Acho que um deles é inclusive muito torto e que por isso nunca fica reto, e os dedos são muito gordinhos, e eu odeio me ver com mãos de matrona.


Quando eu tinha cinco anos, minha mãe me disse que unhas vermelhas são coisa de mulher. Essa informação fincou-se em mim de tal maneira que eu agora até hoje, adulta, definitivamente mulher, mulher desde finda a minha primeira possibilidade de ser qualquer outra coisa, eu não tenho coragem de pintar minhas unhas de vermelho.


Eu tenho amigas que acreditam nas linhas das palmas das mãos. Eu acreditava em digitais, até que as minhas foram meio lavadas, e às vezes é difícil abrir o celular. E eu me pergunto se essa nova superfície que se espalha na pele não foi justamente o que me arrancou do meu futuro de unhas vermelhas. Se não levou o amor da minha vida, meus três filhos, a pedra no meio do caminho e a parte que ficaria pra trás.


Eu às vezes queria poder todas essas coisas, queria consumir essas diversões e alegrias, mas é que uma mácula se espalhou em mim e apagou essas possibilidades. É um novo mapa que se abre violentamente na pele entre meus dedos, o resultado de uma guerra do meu corpo contra ele mesmo, do mundo contra o meu cérebro, das expectativas contra a realidade. É maior que eu e me consome. É uma necessidade de atenção constante que me impede de pensar pra passar cremes na pele, pra tomar cuidados, pra ocupar a mente. É uma coceira constante que me desconcentra. Que se espalha pelo meu corpo e que às vezes me impede mesmo de ser uma pessoa boa.


Era por mim que eu precisava amar minhas mãos. Pelas vezes que me toquei, pelos tatos que colhi, pelas memória de quando segurei firme na minha outra mão e nos levantamos e nos reerguemos. Essas mãos gordinhas e macias, com as unhas sempre crescendo na velocidade errada e que são de mulher mesmo sem o vermelho.


Essa minha sensibilidade possível, esses meus momentos de pausa. Esse meu amor que é ausência. Que não cede. Que não vai embora e é sempre o último que resta pra escolher. É esse o amor que eu preciso, indevassável e oculto e secreto, que ninguém mais vai poder conhecer senão eu.


É aquele amor que entende que as marcas consumindo a pele são na verdade uma conversa de mim comigo. Que essa guerra interna na verdade é a dinâmica que me mantém presente, que me mantém na luta, que me faz chorar, mas também me traz triunfos.


Cada interrupção na minha pele sou eu. Em cada dobra ou quebra na perfeição, é ali onde habito. É o ponto em que minha memória vira história, vira fato. Vira um poder de transformação irreversível. Cada dedo construindo um gesto, um riquíssimo tesouro de possibilidades onde cada gesto é um toque, e cada toque é em outra mão.


Mas também sou eu a pele lisa, macia e gordinha. Eu também sou essa parte que se aflige de ser consumida por algo maior e mais importante. Porque eu me estabeleci assim desde sempre, até que de repente começou a mudar, e tem dias que essa parte só quer deixar de existir tudo.


É a parte condescendente com a minha rebeldia. É um olhar que até pouco tempo atrás era da minha mãe, mesmo que dentro do meu cérebro, me julgando por estar errada de alguma maneira; até que então foi consumido o pedaço que fazia isso, e agora minha mãe é só humana, e esse olhar que julga passou a ser o de uma multidão genérica indescritível.


E a verdade é que a gente precisa mesmo amar nossas mãos. Com gentileza e delicadeza, com ardor e fúria, com toques. Amar as batalhas que acontecem dentro de nós, carregando sempre a compreensão de que a parte que morre, a parte que a gente se desfaz, também é memória, também é presente. É preciso amar até mesmo a surpresa diante das verdades mais óbvias. Um amor envaidecido de cada cicatriz, mas também da pele lisa que aos poucos vai morrendo e que, um dia, me permitiu aquele olhar de descobrimento.


Porque isto é tudo que eu tenho; este conjunto é a parte de mim que está viva e presente, a parte que de fato faz vir o vento, a parte que sente os toques e os olhares, mas que também toca, também olha, também presta atenção. Porque é a parte que ama.


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