top of page

RPG na quarentena: como superar a ansiedade e o bloqueio mental?

  • Foto do escritor: Ray Galvão
    Ray Galvão
  • 30 de mai. de 2020
  • 9 min de leitura

Os melhores de nós já tiveram dias ruins.


A insegurança é um demoniozinho que afeta as pessoas em todos os campos e, no RPG, não é diferente. Acho que todo narrador ou jogador, mesmo o mais experiente, já sentiu alguma insegurança antes do primeiro jogo de um grupo novo ou mesmo no começo de uma aventura com um grupo já bem conhecido — uma sensação que só se potencializa no caso das lives de RPG. Inclusive, acredito muito que esse momento de insegurança seja até saudável; um sinal de que não nos consideramos incapazes de falha, de que não somos narcisistas.

Mas recentemente comecei a sofrer uma versão RPGística do bloqueio narrativo, e isso pouco a pouco se tornou uma falta de confiança constante, gerando muita ansiedade e me deixando muito infeliz com o resultado dos jogos que andava narrando. As soluções que eu já tinha me acostumado a aplicar para sair dessa posição mental de inferioridade não estavam mais funcionando, e eu fiquei um tanto desamparada, procurando como resolver esse pepino antigo de maneiras completamente novas (já que as maneiras antigas não funcionavam mais).




E, veja bem, não é uma falta de confiança na minha capacidade de narrar uma aventura incrível — eu tenho plena certeza de que sou perfeitamente capaz de proporcionar experiências maravilhosas para os jogadores e, no caso das lives, para quem mais estiver assistindo. O problema é maior: é a percepção que tenho antes, durante e depois do jogo de que não me dediquei sequer o suficiente para atingir um padrão mínimo (e só da minha cabeça) de qualidade. É um julgamento interno, se passa 100% dentro de mim e não depende nem um pouco do nível de divertimento ou de satisfação de quem joga ou assiste. É uma incapacidade minha de obter o mesmo nível de satisfação que sempre tive ao narrar.


É a sensação de falta de leveza com uma atividade que, pouco tempo atrás, era tão agradável e divertida.


O problema, pra mim, começou com o RPG de Quinta na Quarta (que acontece às 20h toda segunda).


Apesar da pausa na campanha principal, continuamos jogando toda segunda

A campanha de D&D estava indo para o terceiro ano e já começava a se arrastar muito antes da pandemia. Mesmo assim, insistíamos. Até que chegou a um ponto em que eu simplesmente não conseguia mais me obrigar a jogar, não importava o quanto os jogadores e o público estivessem se divertindo. Achei que o problema era ser uma aventura meio antiga, já embolada, com muitas pontas soltas que eu tinha perdido um pouco o tesão de resolver. Propus uma pausa e simplesmente não pensei mais no assunto.


Pouco depois, comecei uma minicampanha de Monarchies of Mau, cenário adaptação de D&D, lá no Vertente Geek. Era uma aventura nova, com gatinhos vivendo um futuro distópico segundo as regras do meu sistema favorito. Deveria ser empolgante.

Em vez disso, a preparação veio com dificuldade. As ideias não fluíam direito, e eu não conseguia me obrigar a passar muito tempo procurando músicas ou fazendo mapas. O que me movia era a vontade de que fosse muito incrível para todos que de alguma forma participassem da mesa. Pensando nisso, gastei horas de esforço mental pensando em detalhes de cenário, coisas que no geral não aparecem muito em primeiro plano, mas que engrandecem a narrativa. Chegou o primeiro dia de jogo e… Bem, acho que o resultado no geral foi positivo, e acho que os jogadores e o público gostaram e se divertiram bastante. Mas ninguém amou. Nem eu.

Foi estranho pensar em como eu simplesmente não tinha conseguido me divertir da mesma forma de antes. E, pior: em como, durante a preparação, eu não me preocupei com o meu entretenimento. Não parei para pensar no que estava me incomodando a ponto de me deixar com dificuldades só de pensar no jogo.


Eu simplesmente não conseguia mais me envolver como antes, não me sentia mais capaz de acessar aquele estado de alegria e satisfação que por muito tempo veio tão fácil.


A sessão seguinte de Monarchies of Mau aconteceria de novo dali a 15 dias, e eu me dei esse tempo para estudar, analisar e planejar alguma coisa. Não precisava nem ser uma solução, o que talvez fosse pedir demais, mas eu precisava de alguma mudança que me deixasse um pouco mais próxima do conforto e da alegria que espero ver em mim e nos outros quando vivemos uma história guiada por mim.

Já adianto que deu tudo certo, e minhas mesas de D&D voltaram a ser fonte de grande prazer. Mas, para encontrar essa ajuda, havia um problema muito grande: como começar a consertar a situação se eu sequer tinha certeza de qual era o problema? Se tudo o que eu sentia era uma espécie de desconforto?

Comecei a ler outros sistemas em busca de ideias. Achando que talvez o problema fosse o cenário, tentei pensar na construção de mundo partindo de outros pressupostos.


Mas o fato era que eu não queria criar nada novo. Eu queria que o que eu já tinha desse certo. Eu queria me sentir bem nos cenários que domino, que já criei e estabeleci, com o sistema que mais me traz segurança e conforto.


O que eu queria era que a coisa que eu tinha passado a vida inteira fazendo continuasse funcionando, mesmo com o mundo inteiro diferente.





E acho que foi nisso que tive um estalo:


Como eu posso querer que algo ainda seja da mesma maneira se tudo o que eu conheço do mundo parece estar mudando? Como o mesmo tipo de sentimento pode me tocar da forma que tocava antes se tudo o que estou sentindo tem mudado de maneiras ainda misteriosas?


Essa pandemia, que para nós, brasileiros, engloba tanto o vírus e a quarentena quanto a péssima gestão do governo Bolsonaro, tem afetado a todos de uma maneira ao mesmo tempo muito distinta e coletiva. Qualquer pessoa das classes média e baixa, por mais negacionista que possa ser, está sendo afetada. De diversas formas, com maior e menor intensidade. E ninguém vai sair disso ileso.


É inegável que negros morrem mais, que a favela e os pobres sofrem com mais intensidade e de mais formas que os ricos no asfalto. Mas, ainda assim, vivemos um trauma coletivo. No caso da gente que não mora em comunidades de extremo risco, onde as pessoas muitas vezes já viviam essa realidade da invasão do lar, nossa casa, que costumava ser nosso refúgio, tornou-se justamente um lugar de desconforto e de confinamento. O isolamento trouxe trauma e desespero para nosso lugar mais íntimo do mundo, nossa zona máxima de conforto.


Isso expulsou do quarto a busca pela tranquilidade. Transformou a casa num terreno inóspito. Se antes íamos para casa descansar e desestressar, para onde vamos agora? Onde estamos buscando conforto, distração e diversão?




E eu sinto que, no RPG, meu lugar de conforto estava justamente no D&D, o sistema de regras que eu antes acreditava poder tornar incrível e mágico em qualquer situação, não importava o tempo disponível para eu me preparar. E, como todas as outras zonas de conforto de todos os pontos da minha vida, algo se insinuou ali para dentro, e eu não conseguia mais acessar as sensações de relaxamento e felicidade de antes.


Mas eu não queria parar de jogar RPG, não queria cancelar as mesas que já estavam marcadas, não queria — e não podia — eliminar o D&D da minha vida.


Acho Dungeons and Dragons um sistema incrível, mas o nível de responsabilidade do narrador com a criação de absolutamente todos os aspectos da história é realmente muito intenso. E, nesse momento que está botando em cheque todo o nosso sonho coletivo de um futuro cada vez melhor (fosse um sonho com a vitória do Biroliro, fosse com a tomada dos meios de produção), eu não sei se consigo carregar, sozinha, o peso inteiro de um mundo imaginário.


É que, veja bem, minha imaginação está ruindo.




Eu li, esses dias, um texto sobre como estamos vivendo um processo de luto diante da pandemia. Com isso, vamos pouco a pouco vivendo algum dos 5 estágios desse processo. É fácil ver por aí exemplos de pessoas em negação, em depressão ou com raiva. Volta e meia vemos alguma barganha. Temos o exemplo incrível (é mesmo incrível ser o piordo mundoem alguma coisa) do Bolsonaro já em aceitação (e em paz com a previsão de mais de um milhão de mortos).


Sofremos o luto pelas mortes que estamos vivenciando. As mortes dos mais de 25 mil pessoas no Brasil e mais de 300 mil no mundo, a morte de um estilo de vida ao ar livre e cheio de contato físico, a morte do sonho de um super futuro incrível e com outro tipo de percalços para a humanidade, de alguma espécie de sonho político utópico com planejamento de alguma coisa.

Porque qualquer planejamento teve que ser interrompido. Porque isso tudo morreu. Morreu essa parte inteira de nós, e ainda choramos esse luto.


Também dei uma olhada no livro de David Kesseler (citado na matéria anterior) sobre o sexto estágio do luto.


É quando você se transforma. Quando passa por alguma epifania que faz com que você mude invariável e inegavelmente, tornando-se uma nova pessoa. É quando você aprende. É uma ruptura com uma identidade que você cultivou e carregou por tantos anos. E essa pessoa nova é mais forte, porque lidou com o que precisava lidar.


Nunca, jamais, podemos olhar para trás, para esse trauma, com qualquer sentimento de gratidão. No entanto, é preciso compreender que o que está acontecendo agora já se tornou (a gente querendo ou não) parte do nosso processo de crescimento. Não há mais volta: ou a gente se adapta, muda, se torna outra pessoa, ou não teremos como resistir.



Acho que o que sou agora é irreconhecível em relação a quem eu era antes da pandemia. Não encontro mais consolo nas mesmas coisas, não me divirto mais da mesma forma, não vejo mais o mundo nem as pessoas como via antes, e meu julgamento não parte mais dos mesmos critérios.


Se tudo que era aquela Rayssa morreu, por que eu continuaria mestrando e experimentando o RPG da mesma forma?


Pelo menos por agora, eu talvez não queira carregar sozinha a responsabilidade de mundo nenhum. Não queira mais ditar as respostas e a personalidade de todos os NPCs. Não queira mais ser responsável por infringir aos jogadores todos os percalços e dificuldades que eles possam encontrar.



Esses dias li um pouco sobre a polêmica entre os termos mestre e narrador. Mestre soa mais autoritário, para alguns até um pouco sexual e dominador. E isso tudo é, em muitos aspectos, verdade. Desde os primórdios, o D&D propunha o Mestre da Dungeon como uma espécie de “deus supremo do cenário”, que carrega consigo todas as certezas e verdades. E isso persiste, por mais que a quinta edição tenha tentado tirar um pouco dessa responsabilidade dos nossos ombros.

Isso nunca tinha me incomodado antes. Sempre me senti perfeitamente capaz de criar histórias e universos meus e conduzir um grupo por essas veredas da minha imaginação.

Só que, nesse momento em que há tanto peso sobre nós, talvez seja hora de nos livrarmos do que está nos atrapalhando um pouco. Talvez seja o momento de nos despirmos do título de mestre e passarmos a nos ver mais como narradores. Talvez seja hora de agirmos menos como deuses de um universo e mais como observadores e coadjuvantes. Talvez seja uma boa sair de trás do escudo e se sentar de cara limpa, junto dos jogadores. Juntos, somos mais fortes.




Foi pensando nisso que comecei a analisar outros sistemas e jogos em buscas de respostas do que poderia fazer. E deu certo. A intenção desse texto, inclusive, era compartilhar ideias que poderiam ajudar outras pessoas a sair desse mesmo buraco, ou que simplesmente servissem de inspiração para quem não está passando por isso, mas adora ler sobre narrativas e tentar se desenvolver.


Só que eu não contava com qualidade da ajuda que encontraria em meus amigos e aliados. Assim, não que eu achasse que eles eram incompetentes, eu já encontrei muito apoio em artigos como essa matéria incrível da Hades.

Mas eu acreditava que esse bloqueio era um problema mais meu, quase um defeito pessoal. E, nessa dificuldade especial, porque é causada pela pandemia, eu sentia que pouca gente poderia ajudar.


Por sorte, estava errada.



Nasce aqui, então, essa série. Eu ainda estou super disposta a explicar o que me ajudou, mas eu quero poder também explorar as dicas das minhas amigas, da comunidade incrível do RPG brasileiro e de vocês, que estiverem lendo e quiserem apontar sugestões. Quero poder analisar cada aspecto tecnico e sentimental de forma responsável, munida do máximo de conhecimento e tranquilidade possíveis.

Quero, texto a texto, explorar novas e velhas ideias e mostrar como algumas coisas me ajudaram e como podem ajudar vocês também, mestres ou jogadores.


Mais do que isso, sinto que essa introdução é muito importante. Quem me vê sorrindo nas lives ou faceira pelo Twitter não tem como compreender o tipo de dificuldade interna que venho passando. E acho que chegou o momento em que se tornou irresponsabilidade não transmitirmos a realidade sobre o que está rolando na nossa cabeça. Acho que se tornou um erro mantermos a falácia da vida online incrível. Precisamos falar sobre nossas dificuldades, precisamos conversar sobre nossa saúde mental.


Estamos todos mal, mas estamos juntos. E é importante mostrarmos que estamos nessa juntos.


Escrever, assim como ler, é buscar reconhecimento e aceitação no outro. E é o que todos precisamos. Nossa missão do momento, a meu ver, é fazermos o possível para apagar os incêndios, ajudando e socorrendo uns aos outros à medida que as crises vão chegando.

E essa é minha tentativa de retribuir um pouco do apoio e do amor que recebo sempre da nossa comunidade incrível.

Espero que vocês gostem, espero que sigam comigo e que me ajudem com sugestões, indicações de textos e de sistemas diferenciados pra analisarmos juntos e tentarmos aplicar na nossa vida. Para superarmos esse trauma juntos, trabalhando todos os aspectos possíveis dele. Para crescermos, ressignificarmos o luto e, juntos, nos tornarmos uma comunidade melhor.

 
 
 

1 comentário


melgalian
22 de jul. de 2020

Rayssa,


Eu poderia elogiar sua escrita ou comentar o seu texto como as outras pessoas lá no Medium, mas na verdade eu queria vir até aqui, dar o abraço mais forte que conseguir e agradecer de todo o coração por suas palavras. Você não me conhece, eu não conheço você, mas suas palavras estão em mim agora. Elas não são minhas, veja bem, mas eu sou o que elas são.


Muitíssimo obrigado por colocá-las pra fora e preencher por completo o vazio rpgístico que havia em mim.

Curtir
Post: Blog2_Post

Formulário de Inscrição

Obrigado pelo envio!

©2020 por Pô, Rayssa!. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page