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deprimida às duas da tarde de um dia lindo

  • Foto do escritor: Ray Galvão
    Ray Galvão
  • 10 de ago. de 2021
  • 1 min de leitura




minha noite expulsa passarinhos

cobre de piche a água dos peixes

faz do mundo as costas de Atlas


a noite consome os homens

mas minha noite consome as fagulhas

ecoa nos sons da cidade

infiltra cada lembrança de verão

cada fantasia de liberdade

cada aglutinado de resistência


minha noite se espalha pela cidade com a gentileza de uma inundação

o peso de um eclipse desconhecido

o sobressalto de um surto


duas da tarde, e a vida ardendo.

a noite espalha, nem pânico nem caos, um silêncio

um peso de silêncio


duas da tarde, e os homens se entreolham sem saber o que dizer

era imprevisto

— era inimaginável —

o mundo vai acabar!

nenhum meteorologista

nenhum cientista

poeta

psicólogo

pensador

ninguém que se considere gente


minha noite estendeu uma mortalha nos olhos dos vivos

nem deus acredita que o sol possa voltar




 
 
 

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