Precisamos ter uma conversa séria.
- Ray Galvão

- 25 de mai. de 2021
- 9 min de leitura
Atualizado: 27 de mai. de 2021
Esses dias eu tava pensando no Bolsonaro. Mais especificamente, em Hitler. Mais especificamente, em Adorno.

Diante dos horrores do Terceiro Reich, Adorno disse que “escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”. A frase parece meio solta, mas a verdade é que, apesar de tudo o que foi escrito junto, ela é mesmo solta assim. Porque não tem muito o que completar, né? Diante de tudo o que aconteceu, diante de todo aquele genocídio, diante do crime bárbaro que Hitler, seu exército, a Alemanha e a humanidade cometeram, como criar? Como registrar alguma parte boa do mundo, como entrar em comunhão com as coisas senão para se horrorizar com elas? Como trabalhar uma cultura que permitiu que Hitler existisse? Como criticar, observar, exaltar, criar em cima de algo que gerou um crime tão bárbaro quanto o genocídio de SEIS MILHÕES de seres humanos?
E, olha, eu sei que a comparação parece meio injusta, de tão longe dessa monstruosidade que a gente está. Porque a gente ainda não chegou lá, a gente ainda não se tornou essa sociedade genocida que era o mundo do Terceiro Reich (porque olha, o mundo inteiro devia se culpar), a gente ainda resiste. A gente ainda tenta. A gente ainda tá aqui.

Mas, ao mesmo tempo, é uma comparação inevitável. Como é que a gente pode fazer as pazes com um Brasil que elegeu Bolsonaro? Que elegeu um governo responsável pela morte que quase meio milhão de brasileiros (e isso porque ainda estamos na segunda onda, mas os jornais já falam de uma terceira, e há estudos que sugerem um milhão de mortos até o final de 2021). Como é que a gente perdoa nossos familiares, nosso amigos, nossos colegas de trabalho? Como é que a gente reúne coragem de se olhar no espelho?

É muito fácil falar “eu não votei, eu não elegi, não é minha culpa, não é meu presidente”. É uma frase fácil, sai fácil e parece que a culpa também vai embora fácil depois. Mas, nossa, deve ter algo de muito errado na gente como sociedade, na gente como grupo, na gente como humanidade, pra gente ter chegado, juntos, a esse ponto.
E olha, a gente sabe que o Bolsonaro vai cair. Se não agora, daqui a uns dias. É inevitável. O cara é um criminoso, um miliciano, um genocida. Até ele sabe que não tem tanta possibilidade de permanência. Tá todo mundo pulando fora do barco (até a direita, que é a direita, tá pulando fora do barco). É uma questão de tempo (e nesse tempo a gente só aumenta a nossa vergonha, perdendo mais vidas, lidando com essa merda por mais tempo).
O cara vai cair. Não importa o que digam, não importa meus medos ou os seus. Não importa o quanto o Jorge do Avatar de Anime ou Seu João do Mercadinho da Esquina acreditem no mito: vai cair. Impérios passam, ditaduras passam, e esse genocida, no futuro, vai ser só uma triste memória.
Vai cair, e a gente sabe como vai ficar feio na História. Vão olhar um brasileiro e falar “ALÁ O MILICIANO! NADA NO ESGOTO! VETOR DA COVID!” que nem por tanto tempo fizeram um “ALÁ O NAZISTA, RAPÁ! TU CONHECEU HITLER? QUAL SEU PROBLEMA COM JUDEU, HEIN?” quando viam alguém remotamente alemão.

Vai cair, e, na história, vai ficar registrada essa vergonha internacional. Na memória coletiva da nossa sociedade, vai ficar esse trauma.
E o que você vai fazer com seus parentes?
Com aquela Dona Soraya que trabalha na contabilidade e é um amor de pessoa, sempre fazendo bolo pra todo mundo? O que você vai fazer com o seu chefe, que “hehehe, votou no Amoedo”? O que vai fazer com a família de um futuro relacionamento, seus primos, talvez sua mãe, seu pai, seus irmãos?
Vai mandar matar? Vai excluir do país? Vai determinar que não são gente e deviam morrer de covid? Vai condenar pra sempre ao degredo, à humilhação, à vergonha? Vai, enfim, esquecer que "a culpa" também é sua?
É foda esse negócio de culpa, de apontar o dedo, mas é que a gente precisa mesmo conversar sobre isso. Cá entre nós, de igual pra igual, eleitor do Bolsonaro ou não, arrependido ou não, politizado ou não. A gente tem que conversar sobre culpa. A gente tem que conversar sobre os nossos pais, os nossos jovens, os nossos irmãos e sobre nós mesmos.

Ontem descobri que meu pai foi numa manifestação pró Bolsonaro.
Meu pai, que sempre se apresentou como uma pessoa tão racional, que sempre preferiu não se meter nos conflitos, que votou nos quatro governos do PT. Meu pai, que passou fome, que foi pobre, que viu na Aeronáutica uma possibilidade de sair da pobreza e viveu uma formação militar. Meu pai, que eu vi a minha vida inteira fazendo o melhor que podia por mim e pela minha família. Que indubitavelmente me ama. Meu pai, alguém de quem eu nunca nem duvidei do amor. Esse mesmo pai estava lá, andando de moto em homenagem a um cara que acredita que eu sou inferior e errada, mas que mais que isso: que FALA que eu sou inferior e errada e mereço morrer.
Meu pai quer que eu morra? Meu pai não se importa com os 400 mil mortos pelo Bolsonaro? Não se importa que meu avô, sogro dele, tenha morrido num hospital de Manaus depois de superar a Covid, mas não conseguir juntar forças pra acordar, de tanta dor e sofrimento? Não liga pras amigas que eu perdi? Não liga pra como eu mesma sofri quando peguei a doença? Será que meu pai, na verdade, me odeia? Será que ele carrega dentro dele esse ódio fascista imenso que é tão egoísta que é incapaz de pensar no próximo? Será que meu pai é um exemplo do homem branco mediano (e portanto medíocre) que encontra no fascismo uma narrativa heroica pra si mesmo, pra esquecer o quanto é pequeno, insignificante e, como todo homem branco mediano (e portanto medíocre), o quanto ele não consegue sustentar o crédito que recebe de graça, só por ser um homem branco mediano (e portanto medíocre)?
Porque assim, burro, burro eu sei que ele não é. E não é mesmo, meu pai é muito inteligente, versado, leitor voraz... Seria mau caratismo? Falta de noção? Falta de vergonha? Seria ódio mesmo, ou é só um delírio?
Como é que eu posso julgar MEU PAI?
Meu pai, que, apesar de ter caído nessa conversa mesquinha do Bolsonaro, é humano que nem eu, é brasileiro que nem eu, sofre como eu sofro, sente frio e fome e medo. Meu pai, que perdeu pessoas, que teve dificuldades, que se superou em muitos pontos. Meu pai, cara.
E antes dos meus pais eram meus avós. Já falei que meu avô morreu de COVID, né? Como é que eu posso julgar meu avô? Minha avó? Eles já não estão pagando o preço? Já não estamos todos?

Eu não votei no Bolsonaro. E, além disso, eu me manifestei muitas vezes contra o Bolsonaro. Se preciso, eu bato de frente 17 vezes. Eu entro nos debates, corrijo fake news, divulgo informação. Eu estudo, eu me esforço, eu me dedico a tentar acordar as pessoas. Eu me dedico a tentar ajudar as pessoas. Eu li atas, ouvi entrevistas, assisti lives, divulguei verdades. Estudei sociologia, arqueologia, antropologia, paleontologia que seja, qualquer “logia” que possa me ajudar a desarmar alguma coisa do Bolsonaro.
Mesmo assim, eu sou responsável pelo Bolsonaro.
Eu falei lá em cima de culpa. E é mesmo, precisamos conversar sobre culpa. Sobre essa mácula no nosso país, sobre esse trauma na nossa sociedade.
Porque a gente tem que parar de apontar a culpa, eu acho. Realmente não é culpa minha.
Mas como vai ser culpa DO MEU PAI?
Meu pai é uma pessoa só.
Ele não estava sozinho na passeata do Bolsonaro.
E sabe o que é pior? Eu não estava com ele.
Não na passeata, óbvio, mas em todos os momentos que levaram a essa passeata. Eu não estava lá vendo esse ódio pelos outros se fincar dentro dele e criar raízes. Meu pai, que hoje acha que “foi lindo e muito tranquilo” uma passeata que era sobre não usar mais máscaras e enfiar cloroquina no cu, porque não importa se 500 mil morrerem, um dia todos vão morrer mesmo. Esse é o mesmo pai que matava barata pra mim quando eu tava com medo. Que me botou pra dormir. Que tocava música no meu aniversário. Que passou remédio nos meus machucados de bicicleta, que me levou no hospital e que tentou me ensinar a dirigir.
Eu não estava fazendo o esforço de construir uma sociedade menos fascista ANTES dessa merda toda. Claro que eu já tinha um pouco de presença política, participei do movimento estudantil, fui a passeata, fiz ocupação, fiz ato... mas o fascismo não era uma preocupação, era uma coisa distante. A educação política não era a primeira coisa na minha mente. A acessibilidade da informação não era um objetivo. Não como é hoje, quando eu faço questão de fazer live com memes pra todo mundo entender o que tá acontecendo na CPI, que eu faço questão de mostrar que a gente não precisa saber de cor todos os nomes e todas as regras pra acompanhar a política, que eu paro pra pesquisar as respostas que eu não sei no meio de uma conversa, pra mostrar o quanto a gente precisa se informar antes de falar as coisas.
Antes do Bolsonaro, e acho até que durante todo o primeiro turno do Bolsonaro, era difícil a gente pensar... bem, nisso tudo que a gente já devia estar pensando faz tempo.
Antes do Bolsonaro, a gente não pensava tanto em como é essencial explicar política, ocupar a internet, o zap zap, a academia de judô da esquina. A gente tava nos nossos núcleos, falando entre nós, construindo as coisas com a gente. Às vezes se organizava e tentava fazer coisas em coletivo, mas a sensação da política sempre foi de núcleos separados.
Antes do Bolsonaro, se organizar parecia coisa de gente política chata... e, agora, meu último texto é como a gente precisa se organizar.
Antes do Bolsonaro, “facista” era coisa de alemão, era uma ideia distante que só um ou outro tiozão velho chato tinha coragem de falar. Agora, “fascista” é meu pai.
Antes do Bolsonaro, eu podia só ignorar as vertentes políticas dos meus avós e tios distantes. Agora, eu tenho que lidar com as consequências delas.
Depois que a gente cresce, nesse processo estranho que é “virar adulto”, a gente precisa aprender a perdoar pais e parentes pelos traumas normais da vida, aprender a olhar o lado deles diante do monstrinho que a gente foi na adolescência (mesmo que nossa monstruosidade tenha sido justificada).
Depois do Bolsonaro, nesse estranho processo de reconstruir um país em cacos, a gente vai precisar aprender a perdoar pais e parentes tudo de novo. Agora, por traumas sociais.
Por coisas que a gente não consegue nem entender de onde vieram.
Por coisas que, em última instância, não são culpa deles. Nem nossa, aliás. Não é culpa de ninguém (além talvez dos Bolsonaro e sua corja).
E é aqui que eu falo de novo sobre responsabilidade.
Pode não ser culpa nossa, mas esse aqui é o nosso mundo, a nossa vida, a nossa sociedade. A gente era parte do mundo quando as coisas ficaram assim, então a gente tem, sim, parte da responsabilidade por as coisas terem chegado a esse ponto.
Lá atrás, quando a gente disse que “ninguém solta a mão de ninguém”... Como é que eu vou soltar a mão do meu pai? Como é que eu posso colocar o peso do Bolsonaro nos ombros do meu pai, que é proletariado que nem eu. Que é só um, que nem eu?
A gente tem que lidar com a dor e as cicatrizes do que tá rolando, mas como coletivo. Pegar a mão da Dona Suzete, que tem uma banca aqui na esquina, a mão do meu pai, a mão do cara que tava ontem aqui na frente do prédio gritando que a china inventou a máscara, ou algo assim. A gente tem que pegar a mão de todo mundo e fazer uma puta terapia de grupo, viu? Porque só assim, meu deus.
Agora que a gente tá vivendo esse despertar político, agora que a gente compreende a necessidade de estar presente, de difundir ciência, de ter bons debates, de não dar palco pra homem doido... Agora é hora de a gente também pensar nas consequências, na terra arrasada que vai ficar depois do Bolsonaro.
É hora de a gente pensar em como vai se manter inteiro durante o que resta de tempestade. É hora de se perdoar. De, talvez, pensar em como vamos nos preparar para o difícil processo de, mais uma vez, perdoar nossos pais, parentes, conhecidos.
Porque a gente não vai poder jogar essas pessoas fora. Porque a gente não pode ser Bolsonaro e decidir que uma classe de gente merece menos e merece morrer. Porque, de alguma forma, a gente vai ter que voltar a ser um coletivo que inclui também essa gente que se perdeu pro Bolsonaro. Que se descuidou (ou fomos nós que nos descuidamos) e se deixou levar pelo fascismo.
Pra mim, é muito claro o quanto a gente precisa se curar como sociedade, o quanto a gente precisa exercitar esse amor difícil, duro, às vezes impossível que é preciso ter pelos outros.
E esse texto é uma conversa com você, que está lendo. É um pedido de que você olhe pra essa situação e assuma a sua responsabilidade. Faça sua parte. É um pedido de ajuda, porque a gente precisa se ajudar, e é um lembrete de que a gente precisa tomar cuidado. A gente precisa estar atento, a gente precisa ser forte.
A gente precisa construir alguma coisa sobre a qual a gente possa voltar a fazer poesia. Uma sociedade da qual a gente não se envergonhe. Uma identidade de povo que não tenha mais nenhuma mancha do facismo.
E eu não sei como, não sei nem de onde vou tirar forças. Não consigo conceber sequer o que é preciso ou por onde começar.
E você? O que acha? Quem você aceita perdoar? Quem você acha que merece passar pelo seu julgo? Que pessoas comuns você vai permitir que sejam perdoadas? E como vai fazer isso? Por onde começar? Como fazer? Chega um momento em que não tem mais o que a gente fazer que não pensar "nossa, ok então, preciso me mexer e fazer alguma coisa, já que isso não vai se resolver sozinho". Então é isso, gente. O Bolsonaro não vai se resolver sozinho.
A gente vai ter que tirar o cara de lá na unha. A gente vai ter que se juntar como povo e assumir as rédeas e consertar a bagunça e tomar o poder e se responsabilizar (mas não assumir a culpa).
Bora lá, então, né.





Desculpe o palavrão; mas... Kralho ! Que texto, pqp ! Cabeça fritando aqui até agora. Não vou dormir tão cedo esta noite.