Quanto você vale?
- Ray Galvão

- 27 de abr. de 2021
- 5 min de leitura
Ou melhor: como você mede o seu valor? Você é aquilo que você produz, o resultado das capacidades da sua matéria aplicados para um fim específico? Você é o seu ofício, o fruto do seu trabalho; ou é a sua produção artística, como alma a ser contemplada, como uma inspiração ou um conforto que você proporcione? Você é mais que isso? Você se mede pelo tanto de cuidado ou pelo tanto de prazeres? Em que linguagem se converte a balança inevitável que pesa o valor da sua permanência?

Como você define se tem tudo o que merece, ou se não tem demais? Como se convence de que o lugar que você ocupa é exatamente o lugar que deveria ocupar, ou como define o que seria seu lugar ideal? Quando você tem, você acredita que merece? Que é um direito? Ou você se considera um impostor, ocupando um lugar que não é seu? Por que que os outros merecem mais, ou menos, ou o mesmo tanto? Como é que você estabelece o mínimo?
É aceitável um mendigo drogado maloqueiro que rouba bolsas por aí dormir na rua? No frio? Passar fome? E um estuprador? E um genocida? E os ricos? É aí que você define a linha de quem merece ou não a sua atenção? Você já passou fome? Já teve medo de passar fome? Já pensou que não teria como manter seus padrões dali pra frente? Já olhou pro teto preocupado e ignorou a ansiedade de não conseguir pagar o cartão? Já se perguntou o que acontece se continuar ignorando as ligações do banco e como é que mil reais viram dois mil, depois cinco, sete, onze, sua alma. Já teve medo de fazer o imposto de renda?
Quem merece isso? Com quem você permite que aconteça? O que é que diferencia por quem você se afunda no conforto (mínimo que seja) da negação e por quem você bate panela? Quem tá mais longe merece menos dos seus esforços? Então por que é que o mendigo da esquina mora na rua? Por que você não faz nada além de fechar os olhos, talvez reclamando e falando sobre fazer sua parte e ser uma pessoa melhor?
E, mais importante, por isso que eu deixei por último: por que os outros te odeiam?
Não importa quem você seja, há grandes, gigantescas, enormíssimas chances de, se essas palavras chegaram aí, você ser um dos que se odeiam. Um ódio que é tanto de si mesmo quanto dos outros, que você é incapaz de ver como iguais. Que vê como concorrência, mesmo sem saber.
Você pode ter ido a extremos de bondade e grandeza de caráter ou de pensamento, você pode ter toda a racionalidade e a lógica do mundo, você pode ter o conhecimento e a compreensão palpável de que somos um. Paz de espírito, você pode ter. Você pode estar contente com o que faz. Pode estar satisfeito.
Mas a verdade é que você vê os outros como concorrência. Porque, intrinsecamente, você entende que você merece coisas e busca coisas pra merecer. Você se apega. E, vendo gente que não tem suas coisas, você não busca essas coisas pros outros com o mesmo afinco. É natural. A verdade é que a gente não tem nenhuma possibilidade de natureza que não traga uma competição implícita.
Quando a gente pensa na gente como espécie, é como predadores. E a gente encara as outras espécies de predadores sob a nossa ótica de competição, então não entende que um lobo que luta com outro pela dominação de território ou sei lá na verdade está mais preocupado com a sobrevivência da espécie, não com seu próprio conforto. Um lobo não sabe que é lobo. Ele não se identifica como indivíduo.

Mas você, sim. Você pensa. E, pensando, você traduz nos humanos o que acha que vê nos lobos (e na verdade você nunca sequer viu um lobo, se duvidar não sabe nem o que é). Só que a sua interpretação é errada. A sua visão é errada.
Você vê com os olhos dos homens de milênios atrás, esses que interpretaram alguma besteira de um jeito meio torto e decidiram que algumas pessoas merecem mais que as outras. Criaram um registro pra esse merecimento. Definiram camadas de “benefícios”. E, desde que você nasceu, ensinaram que o mundo dos homens é dividido em castas, que viver é ter coisas e desejar mais coisas e que algumas pessoas vão mesmo passar fome, não há o que se fazer.
Ensinaram que deve haver alguma medida de valor pra definir o quanto cada pessoa vai merecer e que, nesse momento, é o quanto você agrega, o quanto você produz. Aliás, o quanto você produz justifica alguma pessoa passando fome? Tem alguma coisa de que você não abriria mão de jeito nenhum em troca de evitar que o mendigo da esquina passe fome? Que uma criança passe fome?

Você talvez se ache diferente porque mede o valor das pessoas pela nobreza de caráter, pelo conhecimento, por algo afetivo ou artístico. Você continua ignorando todos os gurus e mitologias e teorias filosóficas ou religiosas, ou vertentes, ou visões de mundo mesmo, tudo que diga que é preciso de um amor igual por todos. Mesmo com isso tudo, você continua acreditando nos velhos escrotos de milênios atrás.
E sabe por quê? Porque você prefere acreditar que existe algum ser humano no mundo que merece menos do que você em alguma medida. Porque é inevitável pensar assim às vezes, se a gente pensa nos lobos e em como tem que sobreviver como espécie, então pensa que é melhor matar uns aos outros pra garantir a procriação e a perpetuação ou sei lá mais o quê genérico que usem como justificativa. Qualquer coisa como "a lei do mais forte".
E, pensando assim, você não se organiza. Se for uma pessoa boa, se fizer o mínimo, você faz só a sua parte. Mas não dá tempo de pensar no coletivo quando você está tentando garantir a própria sobrevivência, sofrendo ataque de todos os lados, pensando que se você passar fome, ninguém vai se preocupar. Pensando que você é um indivíduo sozinho e que seu mínimo de trabalho solitário pode fazer mais diferença do que uma comunidade organizada e disposta a trabalhar junto.
Você aprende que é mais importante ter paz de espírito pra ajudar os outros do que de fato ajudar os outros, então só faz até a extensão das suas possibilidades. E, olha, eu não julgo, porque eu também sou assim.

Mas o que é que, pra você, faz o jogo virar? Qual é o ponto de virada, o que é que você não está disposto a tolerar sem luta? Que quantidade de pessoas passando fome é suficiente pra você decidir começar a ler o jornal? Quanta gente você ainda vai ver na rua antes de começar a prestar atenção? Qual é que vai ser o momento em que você pensa que tem que tomar uma atitude? E que atitude é essa que você toma?
Por que que você não se junta com outros? E não por um objetivo único em comum, mas pra atingir os objetivos individuais de cada um. Como é que, quando se junta com outros, você define qual dor é maior e que agenda merece atenção primeiro? E porque que não dá pra dar atenção a mais de um tipo de gente de uma vez, como se até o seu olhar coletivo fosse individualizador?
Por que você não se organiza? O que precisa acontecer pra você começar a se organizar, já pensou nisso? O que um presidente, um banco ou uma empresa de tecnologia precisa fazer pra você acreditar que precisa dos outros?




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