Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia
- Ray Galvão

- 1 de nov. de 2021
- 4 min de leitura
Vejo uma menininha olhando pra mim com aquele jeitinho de curiosidade e admiração, sabe? E é como um daqueles momentos que ficam suspensos, a poeira reluzindo ao sol e imóvel no ar, o silêncio de todos os barulhos, um momento de antes do suspiro. Foi um instante, uma construção densa e profunda, e, como todo instante de importância que se preze, veio se desnovelando num emaranhado complexo, e quero aqui puxar o primeiro fio, arrematar a linha na agulha e me preparar para tecer um campo estrelado.

Uma foto é um retrato não de uma paisagem, mas do que se vê, do indizível do momento — do, como diz Clarice, é da coisa. Pois bem, é o que faço agora, mas em palavras: descrevo para vocês a fotografia do momento em que vejo a menina me olhando, em tudo o que se passou nas nuances daquela paisagem, numa rua comum do rio de janeiro, digamos que numa praça, digamos que fazia calor, que havia muita gente ali, vivendo algum feriado ou folga.
Lembro de uma menina que uma vez chegou pra mim, num natal, com toda a vergonha e admiração que uma menina pode ter nesses momentos, e disse: “nossa, você parece uma barbie”. E eu não me sentia nada como uma barbie, eu me sentia uma farsa. Eu me sentia desconfortável sem poder sentar no chão, tinha passado 30 minutos tentando esconder uma espinha e a única coisa de que me orgulhava era o estado do meu cabelo depois de uma hora de cuidados, mas que não podia ficar mexer muito, para não desfazer. Eu não estava me divertindo sendo a barbie. Eu preferiria estar em casa lendo um livro, com roupas confortáveis e o cabelo pra cima.
Tenho feito o exercício de sair para ler. Levo uma canga e me deito ao sol e, mesmo que não leia, eu me concentro em vivenciar o livro. Tenho levado livros para a fila do mercado e o metrô. Tenho carregado um caderno, e esses dias até levei os livros para conhecer um museu. Não sei quando foi que perdi o hábito de andar sempre de mãos dadas com um livro e um caderno, mas esse reencontro foi como voltar para casa.
Minha primeira namorada me conheceu por um livro. Eu estava absorta lendo O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio e acabei sendo colocada nesse papel de Jenny Schecter (isso nos idos tempos da primeira temporada de The L Word, quando a gente ainda podia sonhar). Eu estava lendo, e ela me surpreendeu com uma cantada tosca, e foi tudo tão rápido e tão fácil que eu me pergunto se havia qualquer outra possibilidade de destino senão aquele namoro trágico e delicioso. Eu me pergunto se os meninos se atrairiam por uma menina tão absorta em si como eu estava, ou se sequer chamariam minha atenção. E penso em como só passei a ter namoradinhos bem depois.
Olhando para a menininha, penso na minha janela, na rua movimentada lá embaixo, no espaço de acolhimento entre a janela, a parede que eu pintei, a estante de livros e uma cortina verde e pesada cravejada de estrelas que minha mãe me deu. Penso nas casas das amigas solteiras e adultas dos meus pais, em como meu plano do futuro era uma janela alta para uma rua movimentada em cima de uma padaria.
Penso em como a Rayssa que eu fui olharia para a Rayssa que eu agora sou.
Mas penso também que aquela rayssinha de antes me amava tão incondicional e indivisivelmente que teria se impressionado mesmo quando eu estava fora de mim, casada e dócil, vivendo outra vida. E penso nas vezes em que pensei nela com uma sensação enorme de abandono.

Penso na minha vida agora como
uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica.
Penso em diabŏlus, a origem da palavra: aquele que separa; que é atravessado e que atravessa com acusações; aquele que se opõe.
Penso em como às vezes só quero ficar sentada ao sol junto das minhas amigas, lendo um livro, ouvindo elas viverem, sabendo que a todo instante existe o convite de congregar — sabendo que só estar ali é estar em congregação, é estar numa reunião mais sagrada que qualquer missa, mais essencial que qualquer bênção.
Penso nos livros que eu abro, sentada no chão, entre a janela, a parede, a estante e a cortina, me sentindo escondida num sótão, como Bastian Baltazar Bux, pronta para matar a aula de matemática para mergulhar nesse tesouro: a história sem fim de todas as mulheres. Penso na Mary Shelley e na mãe dela, penso na Virginia, penso numa tradição de mulheres que traçam, de tempos imemoriais até mim, uma linha, uma linhagem. Penso na Harriet Jones e em como precisamos escrever, porque precisamos ler o que escrevemos, porque o registro é a nossa maior forma de resistência.
Abro meus livros preciosos como quem abre a arca do tesouro. Minha vida é uma caçada mais radical que a de qualquer Indiana Jones, e o conhecimento adquirido com tanto esforço e sacrifício ilumina meu rosto com o brilho do ouro puro.
Penso em como o tesouro da arca era perigoso para a humanidade.
Olho para a menininha e abro um sorriso, e se estende entre nós duas uma multidão de meninas e mulheres, e eu sei que preciso escrever para todas, para que saibam que as vejo.

Penso num livro que revisei, recentemente, em que os fantasmas das mulheres assassinadas habitavam ainda o mesmo mundo imaterial que as mulheres vivas habitam. Eram como que presenças, e as vejo agora com a mesma clareza que na narrativa. Todas as mulheres estão presentes nesse momento, nessa troca de olhares, numa cronologia fora do tempo, só nossa, um estado de suspensão que dura o tempo desse instante que capturo aqui.
E a menininha sorri de volta pra mim e esconde o rosto com vergonha.





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